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sábado, 17 de junho de 2017

A garça

Certa vez ouvi uma estória, de um povo que vivia em torno de um lago. Não eram parentes, mas aquela vida os unia. E também os separava, em suas incontáveis diásporas...

A garça

Lá havia uma garça
Que graça abria ao sol
As asas em esparsa
Saudando o arrebol

Tão brancas suas asas
Qual lume de faróis
Orações de mãos dadas
Os Deuses em seus róis

E a Galícia silencia
Os filhos que partiram
As pobres galés giram
No garcês que adormecia

A noite enfim veio
Trazendo seu negrume
Inflando de chaga o peito
Cerrando todo o lume

No campo de centeio
O dramático e fúnebre
Da garça o gorjeio
Último e fatal gume

Rodrigo Martins

Em 21/05/2017

domingo, 21 de maio de 2017

A Rainha

A Rainha

As torres orientais se erguiam imponentes
De tantos séculos imemoriais
Naquelas estranhas terras ancestrais
Erguendo-se ao céu vermelho clemente

Claramente pude ver ao longe uma bela
Figura altiva levada por ventos servos
Sua senhora suavemente e por teros
Elevada a deusa somente e sempre ela

Olhos como um nascer do sol na fria manhã
Mandavam que viéssemos de todo lugar
Adorar, servir, contemplar o escuro mar
Dos lábios daquela dos antigos irmã

Mala malaikat maliciosamente uma
Ave de púrpuras e finas plumas
Um puma que nos persegue em pesadelos
Quando não somos da oriental deusa espelhos

Em algum lugar de 2013

sábado, 5 de dezembro de 2015

Solilóquio do cismar só

Poema inspirado na 2ª Geração Romântica, mais precisamente em Bernardo Guimarães em seu poema A Orgia dos Duendes. Fala sobre o ato de escrever, curta e eficazmente, e à maneira popular. Sem mais. Beijos a todos!

Solilóquio do cismar só

Ah, lua marmórea
Dos bêbedos trôpegos
Graça ilusória
De gemidos sôfregos

Vem cá na terra
Baixar teu luar
O homem que erra
Fazê-lo cantar

As cantorias defuntas
Sombrias, funestas
Vampíricas festas
Maceradas palmas juntas

Que cada pérola
Tem em si sua voz
E apego a
Esta pena atroz

Rodrigo Martins

Em 16/08/15

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A borboleta negra ou Quando borboletas, leões e lobos brincam de roda

É o tipo de texto que vale mais pela linguagem que pelo enredo. Procurei pautar numa certa inocência de Lewis Carol, Peter Gabriel. Procurei utilizar imagens mentais como se num livro ilustrado.

A borboleta negra

(ou Quando borboletas, leões e lobos brincam de roda)

          A borboleta negra deixou o jardim. Deixou para trás lírios e lilases, petúnias e begônias, jasmins e afins. Deixou a colorida fragrância do jardim. Deixou a claustrofóbica segurança do jardim. Alçou vôos maiores: o perigo da liberdade.
          As asas negras refletiam irregularmente o prisma da luz solar. Púrpura de todos os tons irrompia. Profusão de luz tênue. Luz reconfortante, sonolenta.
          O bater de asas tercinado a valsava, rodopiando ao final do compasso, repleto de repetições: o padrão da felicidade de se ter asas e voar. Mas não o mais alto possível, cartesianamente, porém o mais alto que se consegue, que o sonho completa à perfeição, à sinuosidade de quimeras e dragões.
          E a bela borboleta não era feliz. Porque o sentido de felicidade não existia em seu estado. O que existia era o vôo: o espetáculo da borboleta negra.
          Eis que um leão surgiu. Nunca se soube se refletia a luz do sol ou se ele era a própria luz que o sol nos dá todo dia, que fertiliza nossas mulheres, filhas e netas. Sol que beija em lábios de fogo.
          O leão era orgulhoso e bateu na borboleta. Bateu uma, bateu duas, bateu três vezes. Bateu até se cansar. De suas patas altivas caíam farelos e finos pós brilhantes. Pós musicais, pós luminosos na noite que caía. O leão não sentiu pena. Porque a ele era permitido esse direito. A ele todos os seres viventes obedeciam e prestaram juramento acerca de chegada da escura noite eterna.
          O leão se foi e com a Lua Grávida, surgiu um lobo. Seu pêlo refletia a lâmina lunar. Uma suave brisa o acariciava e beijava seus lábios. Os olhos amarelos do lobo eram tristonhos, pois vinham de uma ferida há muito maculada, sangrando um vermelho turvo. Eram olhos de dó. Com toda sua força, o lobo sorveu os farelos e o pó brilhante, negro e púrpura, por vezes azul do mar noturno. Sorveu com vivacidade, com a juvenilidade da primavera, que traz os brotos da colheita do mês seguinte.
          O focinho do lobo – que agora felpudo e esvoaçante no cume do rochedo – encheu-se de luz. Pequenos pontilhos de estrelas nuas, virgens de louras madeixas, colo macio, alvor marmóreo. O lobo que uivava toda noite para a Lua Grávida, dessa vez não uivou. E hoje não sabemos se a borboleta negra deixou de existir, como uma chama que se apaga, ou se habita em sonhos matinais de relva fresca e noturna disputa de clãs, mas foi assim que as estrelas ensinaram aos homens a eternidade.

Rodrigo Martins

Em 19/09/2012.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Estranha morte em paz

Poema um tanto quanto diferente dos que estão aqui presentes. Vindo de uma época bem anterior aos demais, faz parte da poesia castelar, que em sua totalidade pode ser concebida pertencente ao tonus lunar.
Gira em torno de uma nova mitologia, escura, melancólica, terrivelmente sensível. Gestada também no universo espectral e teatral de Guimaraens, Poe e Dickinson.

Estranha morte em paz

Surge uma estrela no céu, onde estamos, no cemitério
De Nova Mag Mell, toda cheia de mistérios,
Sangra o nosso peito, ouvimos sons funéreos:
A filha de Helicon e um negro deus de Ériu.

Naufragam as galés nesta vida tormentosa,
Cobrem-se de marés nossas almas tristes;
Sabemos que é vida escura, não mar de rosas:
O sonho de dois não deixa a torre riste.

A lua nos cobre de horror,
Ilumina nossa cova aberta
– reminiscências da Era Fomor –

Tua mão desata da minha,
A Morte, ao longe, nos flerta,
Caminhamos sem mágica na varinha.

Rodrigo Martins

Pelos idos de 2003, caminhando pelo Arpoador.


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Nocturnal

Um dos mais recentes sonetos que compus, voltando à antiga forma lunar, com a intensidade de Cruz e Sousa, o aparato imagístico do mestre Alphonsus e  ambiência de Poe.
Bonita pérola.
Me orgulho dessa dor.

Nocturnal

O coração que palpita na noite
É o mesmo que banhado pela foice
Espectral ao ver-te colher flores
Sorriu-se assim em música de teus odores

É a mesma noite que se faz em mim
Noite que urra sem nunca ter fim
Melancolicamente se abate
Como um gavião horrendo por toda parte

De sombras minh’alma se cobre
E deita em submerso leito
Por mais que por teu ser ore

Nunca a mim teu riso vem
Em fria pedra como em teu peito
Aqui espero por ninguém

Rodrigo Martins

Em 10/09/2012.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Drummoniando

Por vezes os sentimentos negativos resultam em pequenas pérolas. Este pequeno orbe é influência e homenagem ao grande mestre que Drummond foi.

Drummoniando

É vontade que passa
Fogo que se consome
Melodia que se perde
Versos que se esquece

É mar que não ondula
Deserto que não esquenta
Vento que não refresca
Mal-estar que não adoece

É palavra sem sentido
Olhar sem emoção
Audição sem atenção
Luz sem claridade

A cidade leva
O amor leva
O trabalho leva
Fica a desilusão

Rodrigo Martins

Em 08\06\2013.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Surrealismos

Surrealismos

O arco do espaço-tempo cristalino
Gelificado pelo vazio das incertezas
Humanas, profanas,
Doentes, clementes
Se afoga no charco de mundanas rezas.

O papa escarlate se movimenta
Pelo tabuleiro da oceânica etérea
Província das praias de pedra e fogo
Misticismo. Luxúria. Dor. Ganância.
A arrogância que produz conhecimento
Não devia se casar com o pássaro branco

Lua de fogo e sangue desce pelo coração
Do cervo que, cercado por cem sábios,
Não sabe o que fazer por merecer
Amor maior de um estupro virtual
Colecionado por algozes de bem

A névoa negra nega veementemente
Sua participação na boa ação
Dos dias de graça (e morte e risos)
Recusando-se a beber do vinho do perdão
A carnificina é boa para o
Espectador e o comércio moral

Rodrigo Martins

Em 10/07/14


quinta-feira, 24 de julho de 2014

A torre desmoronou

A torre desmoronou

A torre desmoronou e não surge aqui um anjo para velar-me
A torre desmoronou e não surge aqui um fantasma para assombrar-me
A torre desmoronou e valquírias não vêm levar-me
Para as terras do tormento
Para o inferno multicolorido
Para o passado passando diante dos meus olhos opacos

A torre desmoronou com a esperança da juventude
A torre desmoronou com a inocência perdida
A torre desmoronou com os sonhos estilhaçados num momento derradeiro
E os acólitos lavaram seus cabelos
E as mulheres choraram seu infortúnio
E os pássaros cantaram em anúncio

A torre desmoronou levando mais que escombros
A torre desmoronou numa aura de horror
A torre desmoronou com o céu, as estrelas e tudo o mais
Diante dos enamorados
Diante dos juramentos
Diante da eternidade

Em 24/07/14.


quarta-feira, 27 de março de 2013

A Rabeca

Esse poema tem nitidamente inspiração na música Violin de Becho, de Alfredo Zitarrosa. Não se trata de homenagem ou cópia, numa alusão de compor algo menor, mas, antes, de buscar, viver a atmosfera de Zitarrosa para conceber uma obra gestada em seu mundo poético. Fato este que ocorre com o Solitário de Mariana em relação à magnitude de Verlaine.
O poema sugere um violinista que não pode tocar. A ansiedade é tanta que ele compara o violino ao êxtase do corpo de uma mulher (ou será o contrário?). Enfim, sem ambos, ele delira, pois é inidentificável sem esses elementos. Somente o sonho, o delírio pode manter a ausência em equilíbrio.
Um pouco de tudo isso não nos faria mal algum.


A Rabeca

Quando as folhas d’outono caem
Da rústica morada saem
O pequeno tocador e sua
Tristíssima figura à lua

Não leva nas mãos a rabeca
Leva nos sonhos a voz dela
Presente inda os trinados
De suas cordas por ele tocados

O leve corpo sinuoso
Da alva mariposa de madeira
– Rico acorde luminoso –
Entorpece sua alma ordeira

E em sonhos o tocador se perde
Delírios sem pudores que despe
Corda a corda da rabeca
Trinados diminutos dela

Acordes, harmonias, peças
Rapsódia das mais belas
Como amantes apaixonados
Tocador e rabeca iluminados

E no mais belo sonho de luar
O tocador de joelhos ao chão
Nu quer tocar, quer gritar
Pois não tem a rabeca à mão

Em 24/09/2012.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Saudades

Essa é uma letra de música composta há muito tempo. A primeira versão fiz em 2003 aproximadamente, mas com idas e vindas de HDs, acabei perdendo e o que restou na memória re-compus nesta forma. A ideia original falava da dor de existir e da presença que uma ausência demarca. Por isso, os Açores.


Saudades

Ah, saudade das asas dos pássaros
Da Ilha dos Açores
O forte vento que os leva embala-se
Em místicos amores
Porque são calores
Mesmo que dores:
Cobrem-se de flores

O barco que aporta no cais
Trás do mar as lágrimas
E as rosas que esfacelam-se sob o sol
São amálgamas
De almas
De palmas
(Dançam) valsas

O sol bateu em meu rosto quando te vi
Sua luz invadiu e floresceu no que havia ali
Se eu soubesse que era amor talvez pudesse explicar
Que eu fui feito, oh meu amor, aqui nesse mundo, só para te amar
Se eu soubesse que era amor talvez pudesse explicar
Que eu fui feito, oh meu amor, naquele minuto, só para te amar

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O gigante da colina



Esse poema compus numa tarde de verão, olhando um morro do Rio de Janeiro. Há muitos anos que o contemplo à tarde, é o velho gigante, ou gigante da colina, como o chamo intimamente. Muitas vezes, a procura de paz, busco por ele e reflito sobre meus questionamentos ou simplesmente o contemplo "nagualmente". Nesse poema, precisava escrever coisas difusas, muitas setas que se espalhavam por lugares diversos e retornavam para sua origem. Esperava homenagear meu amigo gigante, mas no fim das contas mais uma vez compartilhamos momentos de paz.

O gigante da colina

Dorme o velho gigante
Com seu corpo espalhado
Por sobre a terra imensa
Estendendo-se por braços
Abdome, peito e ombros
Dorme enquanto o sol queima
O seu corpo ancestral
De um verde acolhedor
De muitas ervas rasteiras
Dorme o velho gigante

Quando a noite traz o luar
E chegam-se seus mistérios
As almas dormem – profunda
Paz repleta, sonos múltiplos
O gigante abre os olhos
De uma fenda luz verde
Vaga noite adentro e
Vasculha sonhos, desejos
Que a alma humana almeja
E teme ingloriosa

O velho gigante vê
As três belas mulheres
Com seus cabelos vermelhos
Ondulando em ganância
Sexo, mentira e morte
Um pai que em desespero
Chora em sonos seguidos
Seguidamente por choros
Um grande palácio rico
Em ouro, pedras diversas
Atrás de uma passagem
De um viaduto no Centro

Dorme o velho gigante
Com seu corpo espalhado
Por sobre a terra imensa
Estendendo-se por braços
Abdome, peito e ombros
Dorme enquanto a lua toca
Cobrindo de prata seu
Grande corpo acolhedor
De muitas ervas rasteiras
Dorme o velho gigante


Em 05/11/2010, ao olhar um morro ao entardecer no Rio de Janeiro.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Em memória de Brian Mac Turienn



Em memória de Brian Mac Turienn

O bravo Brian era cruel. Sim, era.
Com um ímpeto de um rei, tal qual sua mão
A roubar os tesouros do mundo, assim fizera;
Da orgulhosa Erin, de Turienn o Leão.

Brian tombou reis, de sangue ao chão,
Para a glória de sua raça pôs a galhada à testa,
Matou Cian, pai de Lugh – sem perdão;
No tempo das lendas, dedaleiras em festa.

Uma bela rapsódia foi sua vida;
Uma cadeira, na Tara, faltou em seu lugar.
Havia uma cratera – pouco d’antes uma ferida –

Em seu peito manchando a terra esmeraldina:
Muitos Deuses se puseram a lamuriar
Ao ouvir ao longe três gritos sob a colina.


Em 31/10/2005, durante um Beltane.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Cântico a Vespérion




Finalmente tomei coragem e resolvi falar um pouco mais de um projeto ambicioso. Estou preparando uma série de livros em fantasia medieval. Comecei em 2011 e já tenho bastante coisa definida. Desde que me aventurei pelo mundo da literatura, esse foi meu estilo preferido e ao mesmo tempo o mais sacrificante compor. Do passado adolescente distante, repleto de guitarras distorcidas, violões cristalinos e letras e mais letras falando em elfos, veneração aos sábios dragões, batalhas das mais épicas e míticas, até o ingresso na universidade e a transfiguração de tonus lunar a solar e retorno a ele, nunca abandonei de fato o estilo. Lembro de uma conversa com o Thiago. Nela falei que um dia voltaria a escrever temas em fantasia medieval, criaria um mundo fantástico e fecharia esta satisfação pessoal. Minha surpresa foi que este projeto superou minhas expectativas. Em outro post falo mais abertamente sobre ele. Por enquanto, trago a vocês uma oração em forma de cântico entoada pelos misteriosos Magos de Vespérion.

Cântico a Vespérion

Estrela primeva
A despontar no céu
Estrela que leva
Redenção a Élnith
Estrela de muitas
Cores em harmonia
Estrela primeva
Mãe de nossa magia

Nós te saudamos
Bonita princesa
A Ti entoamos
Cânticos de beleza

Púrpura é nossa cor
Teu é nosso amor
Ó irmã das estrelas
Que nunca fraqueja
Sê nossa inspiração
Paz e proteção
Firme em nossa mão
O cajado da paixão

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O pescador e o druida




Hoje não estou muito bom para florear minhas palavras. Quase todas mostrariam resignação e chatice. Porém foi preciso escrever, botar para fora certos sentimentos, conclusões, pensamentos. Foi preciso publicar também, afinal, é o tipo de coisa para o qual este texto foi criado. E também é assim a proposta dos blogues em geral. Sem mais me alongar nestas linhas trôpegas, eis:

O pescador e o druida

"Um pescador foi ao encontro de um druida que passava por aquela vila pedir para que os Deuses resolvessem seus problemas. O druida lhe disse que assim clamaria por ele. Certo tempo se passou e o pescador não teve seus problemas resolvidos. Ele buscou o druida no mesmo bosque:
- Pedi-lhe que intercedesse aos Deuses por meus problemas. Eles continuam. Por que nada fizeste?
- Eu orei por você.
- Apenas orou? Mas não fui atendido.
- Por que ao invés de perder tempo comigo não resolveu você mesmo seus problemas?"

................

"Calmamente o druida cavou um buraco na terra e retirou uma semente dos bolsos. Atirou a semente no buraco e o tapou. Foi até o leito do rio e apanhou um pouco de água com as mãos. Jogou sobre onde tinha enterrado a semente, que era ao lado de uma macieira.
Então pausadamente perguntou ao pescador:
- Compreendeste o sentido disto?
- Não entendo como isto pode me ajudar.
- Todos temos um tempo para nossas ações. Findo este tempo, devemos esperar pelo início da próxima estação. Aquele que não planta nunca colherá.
O druida se foi. O pescador ficou contemplando a semente recém-plantada."

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Terra Mítica




Este poema/canção vem do longínquo ano de 2000. Composto durante a noite, numa aula de matemática ministrada por uma professora repressora e preconceituosa. Eu cursando ensino médio técnico, ainda assinava "Rhodrigo", pensando na minha banda de metal, esoterismo, doido para chegar logo em casa e ler mais Ted Andrews.
Não foi difícil me desligar por completo da aula e visitar o mundo com o qual estava familiarizado. Mundo este inspirado por Blind Guardian, Tolkien, Marion Zimmer Bradley, Ted Andrews e uma infinidade de lindos espíritos benfazejos.
Depois de pronto o poema, mostrei ao Cezar, meu futuro ilustrador e parceiro de banda na época. No dia seguinte ele me ligou dizendo que havia composto uma música usando meu poema como letra. Achei formidável.
O tempo passou. Nossa banda se foi. Com ela, várias coisas que criamos juntos. Este poema ficou guardado com ele durante anos. Coisa de uma semana lhe faço uma visita e ele me mostra o poema.
Repito suas palavras ditas há muitos anos: "Algumas coisas são eternas."


Terra Mítica – Rhodrigo

Terra Mítica, eu a vi
Púrpura como a noite
Se estendendo sobre florestas
E riachos que correm velozes

Terra de bardos e guerreiros
E anões fazedores de tesouros
Que habitam em cavernas
Guardadas pela sombra de Durin

Em cristalinos lagos
Belas ninfas se banham ao sol
Brincando com a água
Que escorre pelo rosto e volta para o lago

Duendes correm por entre trevos
Rumo ao arco-íris
Procurando potes de ouro
Rumo ao arco de Íris

Terra Mítica, eu a vi
Púrpura como a noite
Se estendendo sobre florestas
E riachos que correm velozes

Luas verdes e azuis
Dançam no céu
Guiando e ensinando
Sacerdotes e magos

Na antiga floresta
Velhos carvalhos
Murmuram doce melodias
E tocam com bardos

E há elfos que protegem florestas
Sonhando acordado
Ao lado de homens mortais
Embalados em batalhas medievais

Há gnomos que curam lebres,
Raposas e aves
E há unicórnios que se escondem
Por entre macieiras

No jardim, a mais bela fada
Mora em uma roseira
Artemísia é seu nome
A princesa das flores

Envolta em arbustos
Seus olhos transbordam
Amor e alegria
E sua fragrância inunda o jardim

Terra Mítica, eu a vi
Púrpura como a noite
Se estendendo sobre florestas
E riachos que correm velozes

E há espadas encantadas
Fincadas em pedras
Guardadas em cavernas
E há Merlins e Arthurs

Para encontrá-los basta acreditar,
Imaginar e sonhar
Feche seus olhos
E poderá vê-los... também

Em 09/06/2000, durante uma aula de matemática

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lamentações de Jacob Green


Este poema compus no trabalho, durante o intervalo. Ele é um dos poemas que colocarei na minha série. É um, dos muitos, momentos de introspecção de Jacob, um dos personagens centrais. Compus inspirado na música Darkness be my friend, do genial mestre Bruce Dickinson.

Lamentações de Jacob Green

Fria, a luz do sol cai
Um solitário homem em silêncio
Lembra-se do burburinho do ontem
Enquanto lágrimas escorrem pelo seu rosto

Campos abertos são sua morada
Uma bela paisagem melancólica
Perdida em pensamentos que ele não teve
E ele só pode culpar a si mesmo

O peregrino não irá procurá-lo
O mar não encontrará seu rochedo
Somente a relva será testemunha
Que, fria, a luz do sol cai


Em 14/06/2011

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O estranho Jack


E eis que nasce mais uma obra inspirada no cinema. Após assistir pela enésima vez O Estranho Mundo de Jack, do genial Tim Burton, resolvi escrever algo entre um poema tradicional e um poema em prosa. Quando me dei conta, estava cantando e batucando na mesa uma melodia com estes mesmos versos aí embaixo. No mesmo dia conversei com o Thiago e fomos traçando idéias mirabolantes para esta minha estimada pérola irregular. Ainda estamos em fase de estudo mas... quando o Jack chegar... ele vai pegar você...!

O estranho Jack

Narrador:
O estranho Jack, o rei do horror
Prepara novos truques de pavor
Girando manivelas, bonecas magricelas
Cera quente, para o escuro: velas
E o roçar de ferro retorcido
É música boa para seus ouvidos
O estranho Jack já preparou
Muitas brincadeiras para o monstro que soltou

Jack:
Criar novos truques é a minha diversão
Te matar de susto, muitas vezes, um montão
E quanto mais – muito mais – muito mais, melhor
Segure sua cabeça para evitar o pior
Vou te girar, te girar sem parar
No alvo de dardos para te acertar
Não se preocupe, vomitar não vai
O peixe em sua boca, ele não cai

Crianças:
Aqui na Cidade do Halloween
Não permitimos balas de festim
Eu sou o Jack – Jack – o estranho Jack
O pesadelo de senhoras de leque

Narrador:
Correndo com pressa o Jack vai
Atravessando a ponte do rio que cai
À casa da boneca de pano, sua amada
Dar a ela uma boa torturada
O Jack a cobre de beijos e carícias
Sempre antes de suas sangrias
E no porão ela espera de montão
Os pratos de verme a sua refeição
Mas quem pensa que o Jack é mau
É porque não viu ainda nada igual
Ele ama aqueles que se mexem
Para que seus olhos para sempre se fechem

Crianças:
Aqui na Cidade do Halloween
Não permitimos balas de festim
Eu sou o Jack – Jack – o estranho Jack
O pesadelo de senhoras de leque

Narrador:
No fundo do baú ele procura feliz
O precioso instrumento de torcer nariz
Ele está reservado para um garoto abusado
Que chega na escola sempre atrasado
O Jack o espreitará embaixo da cama
E depois encherá seu sovaco de lama
E do terrível torcedor de nariz
O moleque não escapará nem por um triz
E com muita lama e leite pelo seu corpo
O Jack chamará um monte de porco
E com um bilhete no dedão do pé
O Jack deixará seu recado com fé

Jack:
Diga, moleque, que eu vim
Da terrível Cidade do Halloween

Crianças:
Aqui na Cidade do Halloween
Não permitimos balas de festim
Eu sou o Jack – Jack – o estranho Jack
O pesadelo de senhoras de leque

Narrador:
O prefeito da cidade mandou buscá-lo
Os morcegos com cabeça de galo
Voaram – voaram –, voaram – voaram
E no castelo do Jack o encontraram
Ele precisava salvar o cavalo do prefeito
– Oh, que dia mais perfeito! –
O cavalo carnívoro comeu uma gata
Feiticeira muito braba
Então o Jack cortou veias e artérias
Enquanto pessoas olhavam sérias
Pôs nas cavidades sanguessugas
Fedorentas, nauseabundas
Dentro do cavalo a gata feiticeira
Se dividiu em muitas maneiras
Logo as sanguessugas sugaram tudo
Toda a feitiçaria para seu mundo
E assim o Jack, o rei do horror
Resolveu mais um caso com louvor

Narrador:
Mas o monstro verde que o Jack soltou
Muitas pessoas devorou
Pernas, braços, costela e cabeça
Estavam espalhados – mas que beleza!
O monstro verde avermelhou
As ruas e vielas por que passou

Jack:
O monstro verde eu soltei
Para as brincadeiras que preparei
Fechei ruas, avenidas – sem-saída
Para resultados suicidas
Ofereci guilhotinas, venenos e forca
Para que o monstro não te morda
Minhas alternativas são de matar
Que grande piada isso irá terminar
Por isso rio – rá rá rá
O monstro verde só quer um amigo para brincar...

Crianças:
Aqui na Cidade do Halloween
Não permitimos balas de festim
Eu sou o Jack – Jack – o estranho Jack
O pesadelo de senhoras de leque

Jack:
Diga, moleque, que eu vim
Da terrível Cidade do Halloween

Em 09/02/2011

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Novelo




Este é um conto já um tanto antigo, de 2005. Os motivos pelos quais o escrevi prefiro ocultar. Fiz no calor do momento e hoje, apesar de adorá-lo, o que me inspirou não faz mais sentido. Mas de qualquer forma está aí um bom exemplo de uma boa resposta. À época fui elogiado por amigos e colegas, professores, enquanto outros desprezaram. Acredito que foi neste conto que minha ficção mudou de mitológica e fantasista medieval para algo mais sobrenatural urbano.

Assim, tomem cuidado com O Novelo..!

O Novelo

Esta estória os avós ouvem quando ainda são meninos. E tolos o bastante para não se perguntarem ‘como é possível?’. Ela é modificada para se adequar ao tempo em que é contada. Então a ouvem atentamente, imaginam. E sonham. Isso cria o Novelo. Antes que suas soberbas inteligências me perguntem, responderei às indagações que se formam em suas brilhantes mentes.
O Novelo simplesmente é. Sempre foi. E sempre será. Mesmo que nada mais haja, o Novelo estará lá. Para quando o Tudo surgir, ele co-habite em sua essência, seja simbiose e uno, perdão e pecado, glória e vergonha, beijo e tapa, escapismo e meta.
Mas na verdade vocês mesmos sabem que o Novelo não é nada disso. Sabem que ele está aí, em algum lugar de suas mentes, mas não podem achá-lo. É mais fácil ignorá-lo por toda a vida. Ele é mais que sonhos e pesadelos.
Ele é... o Novelo.

Joel era um homem arrogante. Professor de uma universidade bastante conceituada. Extremamente racional o objetivo, como se definia, em suas questões cotidianas. Seu divertimento era troçar das pessoas, de suas idéias, argumentos, atitudes. Nunca se importou em ofender, mal-dizer, tudo isso era para ele um jogo bem, e muito bem, jogado. Em suma, o mundo o incomodava. Porque Joel era grande demais para ele. Ele se sentia um gigante, o verdadeiro Godzilla, a desmembrar o íntimo das pessoas que entrassem em seu círculo de relacionamentos.
Certa vez, uma pequenina criança, um menino, estava sentado no capô de seu Corolla preto. Havia algo em suas mãos. A luz do sol de Copacabana ofuscava, mesmo de óculos escuros, os olhos de Joel.
Chegando próximo à criança, Joel percebeu que se tratava de um livro. A capa vermelha com contornos dourados fê-lo lembrar-se de sua infância. Mas era algo por demais apagado em sua mente. Porque para Joel a fantasia da infância era algo por demais abstrato para sua mente racional compreender. Joel odiava ursos cor-de-rosa, sapos falantes, coelhos que usam meias. Isso nos leva a crer que Joel tinha a alma de um porco presa num corpo humano.
‘Saia daí de cima, moleque’, disse Joel. O pequeno menino apenas olhou para ele. ‘Que é isso que está lendo?’. Arrancou de suas mãos o livro vermelho deixando soltar uma página. E ela fora levada pela brisa que leva ao mar para suas águas. A doce e frágil Alice era valsada pelas correntes de ar e afogada no mar, juntamente com o coelho branco.
‘Tio, a Alice tem medo do gato que desaparece. Eu também tenho’. Joel olhou a capa e deparou-se com o odioso nome de Carol, Lewis Carol. Folheou mais algumas páginas não acreditando em tamanha futilidade para tão pouca idade. E jogou o livro ao chão.
‘Moleque estúpido. Lê João Cabral de Melo Neto e aprende alguma coisa nessa tua vida ridícula’. Ao fazer isso, ainda não achando o bastante, acerta um safanão na testa do menino. Apenas um pequeno menino que brinca com o que os adultos racionais e inteligentes preferiram ignorar até o fim de suas existências, até o momento em que clamarão por Cristo Salvador. Por que não mais em nada acreditaram em suas vidas, na hora do retorno à Mãe-Terra clamam por sua providência?
E Joel se fora. E fora feliz em seu carro novo, acelerando fundo, fechando outros motoristas.
Ao chegar em casa, tarde da noite, ele vê um estranho pássaro negro no topo de seu telhado. O pássaro é grande e Joel pega um velho binóculo que havia em seu porta-luvas. Ele pensa se tratar de um urubu, mas qual não é sua surpresa quando se depara com um corvo negro.
Joel diz a si mesmo que isto não pode ser verdade. O corvo então agita suas asas. Joel não quer admitir, mas está com medo. Muito medo. Apavorado, esquece-se de trancar a porta do carro. ‘Que se dane. Não há maneira de ninguém vivo entrar aqui. Não existem corvos no Brasil. Isso é o cansaço. Preciso de um bom banho.’
E assim Joel fez. Tomou seu banho. Antes deu o costumeiro beijo na testa em sua esposa, jantou, vestiu seu pijama amarelo e dormiu.
Joel teve um sono pesado naquela noite. Em momento nenhum se debatera, mas seu espírito se agitara dentro do corpo.
Ele viu um homem de baixa estatura que trajava roupas cinzas caminhando por um longo caminho subterrâneo. Este homem portava uma máscara de oxigênio e uma bengala branca. Parecia usá-la como uma varinha, manejando-a entre os dedos. Ele tateava as paredes do corredor como se procurasse algo. Dado momento, percebeu o homem escavar a parede. Não sabia por que nem como ele estava lá. Apenas sabia que estava. E aquele lugar era de certa forma conhecido por Joel. Será que ele poderia realmente lembrar-se disto? Será que Joel já vira este estranho? Quem era aquele exótico andarilho das trevas a caçar tesouros numa velha mina abandonada? Que seriam tais tesouros?
Talvez nem mesmo Joel pudesse saber.
O homem, juntamente com seu cenário, sumiu. Joel sentiu; seu corpo ou sua alma, não saberia dizer; afundar numa camada de gel, ou um véu. Essas sensações eram novas para ele. Porque Joel não sonhava. Não sabia qual o sabor de uma nuvem de chuva, que as estrelas são bolas de luz fria e explodem ao serem tocadas, que a lua se torna cheia quando grávida do rei-sol.
Joel estava agora em um corredor da universidade em que lecionava. Lentamente ele subiu as rampas de acesso. Ouvia barulhos estranhos, como o de ventosas se desgrudando de algum lugar. Súbito, ele se depara com um inseto gigante. Ele era azul. Como um carrapato bêbado de sangue.
Joel desce as rampas correndo. Chegando de volta ao primeiro andar, vê uma cena horripilante: o mesmo homem de máscara conduzindo sua bizarra companhia de insetos gigantes. Joel dá um grito de agonia. Como em outras tantas vezes em que era surpreendido no meio da noite quando criança. O homem muda de direção e passa a perseguir Joel.
Ele estica sinistramente sua bengala derrubando Joel, que cai ao chão, para levantar-se e cair novamente. Repetidas vezes isto aconteceu. Joel sobe as rampas então. Ele se depara com o inseto que defrontara anteriormente, pois havia se esquecido dele. O inseto o agarra. Joel, paralisado de pavor, apenas se entrega. Tão facilmente se entrega. Mas o divertimento de uma caçada é a caçada em si e não captura da presa. O inseto prende Joel entre suas patas, as mandíbulas se abrem, uma gosma verde é ejetada de suas entranhas e acerta em cheio Joel. Assim como o cascudo que dera no pequeno menino na praia. A gosma queima seu rosto. Mas ele pode suportar. Seus bigodes e barba estão verdes. Joel dá um grito. E chama por sua mãe.
O papel simbólico da mãe permeia a existência humana desde o mais remoto tempo. Dizem até mesmo antes de o homem tornar-se o ‘homem que sabe’, como se o homem soubesse de alguma coisa. Afinal, homens que sabem não clamam por sua mãe. Eles a honram e não exploram seu ventre, sua fertilidade. O matriarcado permeou os primeiros cultos da humanidade. E mesmo em mentes racionais ainda há um pouco do culto à mãe, da mãe que protege, alimenta, afugenta o menino brigão que implica com seu franzino filho.
E foi esta memória perdida na mente de Joel que dissipou seu verdugo. Porque os sonhos são assim. Nos domínios de Oneiros não é o rei-pensamento seu lorde, juiz e captor, mas sim o Novelo. Ele é o Nada e o Tudo. Mesmo quando o Tudo vira Nada, o Novelo sempre está. Nos domínios do Rei-Sonho, somente o sonho É.
Todavia, isso não era o bastante para que Joel estivesse livre de seus algozes. Mesmo o inteligente Joel sabia que um truque não pode ser usado duas vezes. Ainda mais o velho truque do nada, o ‘não acredito’, o qual Joel sempre usara durante toda a sua vida.
Por isso ele continuou a correr, subindo as infindáveis rampas. Sabia que uma hora teria de chegar a alguma lugar. Sabia que tudo estava tão estranho demais e que as coisas ditas reais deveriam aparecer a qualquer momento. E ele se agarraria a elas de qualquer forma. Poderia haver alguém nos andares superiores, alguma coisa que o pudesse livrar daquela hediondez.
Joel desistiu de correr. Havia se cansado. Não era mais um jovem e sim senhor de idade avançada. Arfando, ele tem a mirabolante idéia de tomar o elevador. Sua mente soberba o auxiliara a descer enganando àquele tétrico ignoto ser.
O elevador demora e o terror na mente de Joel faz gelar seu coração. Suas mãos trêmulas mal conseguem acertar o botão tantas vezes já acionado. Ele ouve barulhos. O mesmo barulho de ventosas se desgrudando do chão. Ele leva uma das mãos à boca. Os passos ficam fortes. O homem da máscara de oxigênio aparece, rodando sua bengala branca a uma velocidade altíssima; mesmo os melhores produtores de efeitos especiais não poderiam fazer coisa semelhante; uma orquestra de insetos gigantescos o segue. Joel esmurra a porta do elevador. Súbito, ele aparece. Joel abre a porta. ‘E agora? Vá tomar no cu, seu filho da puta de máscara.’ Porém quando Joel olha, vê que não há elevador. Não há nada senão um grande fosso. E ele quase se precipitou. Até mesmo o homem pensou o mesmo.
O silêncio sepulcral deste momento fora irrompido por ventosas. Mais ventosas. Joel empurra o homem e corre a descer as rampas novamente. O homem pouco se importa. Joel se sente um rato fugindo todo o tempo preso num labirinto a espera do Minotauro. Ele chega ao andar abaixo e se dirige ao lado esquerdo do corredor, na tentativa de esconder-se numa das salas de aula.
Quando avista a primeira delas, Joel vê o homem saindo de lá. Um mudo grito de terror ele dá. O homem aponta sua bengala para Joel. Ele estranhamente parece olhar o íntimo de sua alma. Porque os olhos são as janelas da alma. ‘Ô, seu arrombado, você sabe quem eu sou, sabe?’ Joel vê a bengala tomar a forma de um revólver. Branco. O homem nada diz. Dá um tiro em sua mão esquerda. Joel chora. Antes ele vê o homem, com uma gestual como num passe de mágica, transmutar o cenário onde estavam: o chão é todo feito em xadrez, com grandes pedras brancas e negras; há pilares relembrando a arquitetura grega; há um altar com um trono atrás do homem; há espadas e armaduras encostadas nas paredes. O homem traça com sua bengala a testa de Joel e a marca com um heptagrama.
Joel olha para os lados. Todos eles. Vê diversos selos de Salomão espalhados fora do piso xadrez. Mas selos de Salomão não têm serventia para ele neste momento. Ele encontra uma espada, que a muito custo consegue tirar do apoio. O homem vem em sua direção, andando como um esgrimista. Logo Joel percebe o que ele quer. E parte com sua fúria para cima do homem, que se esquiva. Lugubremente o homem sempre evita os movimentos de Joel. Ele sabe que não pode vencer.
Joel pensa em correr. O homem parece ler seus pensamentos. Ou lia seus sonhos? Impossível dizer. O homem o ataca. Joel não se defende e solta sua espada. O homem dá severos tapas em sua face. Joel choraminga. Como uma pequena criança quando apanha injustamente. O homem o atira ao chão e o chuta em suas nádegas.
Joel levanta e corre. Não sabe aonde foram parar os insetos. Ele não se importa. Tenta correr em direção às rampas de acesso. Desta vez quer ir para baixo. Quer sair da universidade. Mas o homem voa às suas costas, derruba-o, joga o peso de seu corpo contra o corpo de Joel amortecendo a queda.
Num ímpeto de fúria, e coragem; algo raro por parte de Joel neste episódio; ele enfrenta o homem da máscara. ‘Qual é a tua, ô cara? Se esconde por trás desta máscara. Mostra a cara, meu irmão, tá com medo?’. Algo na mente de Joel lhe dá a impressão de que o homem se surpreendeu com tamanha racionalidade diante de uma situação tão extrema. O homem tira sua máscara e Joel o vê sacudindo os cabelos negros. Aos poucos os cabelos espalham-se para mostrar o rosto deste homem tão macabro. Ele é um jovem. Dezesseis, dezoito, vinte anos. Joel não poderia caber. Os véus nublaram sua mente. Mas o corpo transmutara-se num pássaro. Com penas negras. Por todo o corpo deste jovem homem. Mais uma vez Joel grita. Seu horror era tamanho que ele se atirou ao chão. E gritava como se houvesse perdido a sanidade. O homem, agora com corpo de pássaro, dá outros severos na tapas na face de Joel. Ele, cansado de tanto desespero, sofrimento, dor, angústia, suplica para que tudo isto termine.
O homem traz na palma da sua mão um símbolo onírico. Ele tenta esfregar na testa de Joel. Tomado de pavor, Joel afasta a mão do homem e, no mesmo instante em que projeta suas mãos contra o peito dele, promove o mesmo ato em seu quarto.
Joel acorda sobressaltado. Respira ofegante repetidas vezes. Abre os botões de seu pijama amarelo. Toma o café frio que está em cima do criado-mudo. ‘Maria, acorda Maria, eles voltaram’. ‘Eles quem, Joel?’ ‘Eles, os besouros azuis...’

Mesmo a partir deste dia a personalidade de Joel continuou a mesma. Ele era velho demais para mudar. Até mesmo alguns pontos de suas características foram reforçados, porque ele não poderia demonstrar traços de derrota. Mas ainda assim, quando a noite chegava, e o vento assobiava suas melodias lânguidas, as corujas emitiam seus grunhidos de medo, os morcegos quase o derrubavam. Joel sabia que estava na hora de enfrentar sua cama, seus medos, seus sonhos. Sabia que Ele estaria lá, esperando por ele, com sua máscara de oxigênio, com sua bengala branca, com sua trupe de insetos gigantes. Ansiosos por brincar novamente.

31/05/2005

sábado, 9 de outubro de 2010

Vigo meo


Este poema surgiu de maneira suplicante. Sutilmente pediu-me para vir ao mundo. Assim eu o trouxe do "estado de dicionário", como Drummond disse uma vez. Ele mescla um pouco da poesia trovadoresca portuguesa com minhas crenças filosófico-religiosas, e é claramente uma alusão ao conhecido poema "Mar de Vigo", uma cantiga de amigo deste período literário. Composto em 4 quadras, montei-o com rimas alternadas. Somente na 3ª quadra rimo apenas as vogais, excluindo as consoantes entre elas. Gosto de dar esse efeito. Parece-me que o poema perde um pouco sua característica "diatônica" e ganha uma característica mais "cromática", como numa escala musical.
Também "forço a barra" na 2ª quadra. O leitor deverá ler "ÓSbens". Assim mesmo, aberto, para poder rimar com "HOmens. Não é muito comum eu fazer isso, mas há momentos em que a construção poética não me deixa outra alternativa. Prefiro não comprometer a mensagem do poema.

Vigo meo

Ondas do mar de Vigo
Ondas do mar bravio
Diz-me se contigo
Vai o vital navio

Donde navegam almas
Daqueles errantes homens
Que no mundo, palma a palma
Valsam por fim os bens

Ondas do mar de Vigo
Ondas do mar Valente
Faz-me tronco rijo
Aos ventos e clemente

Na Lua do céu que no Mar
Resplandece ancestral
E há de me afastar
Dum destino mui banal


Rodrigo Martins

Em algum momento de 2009

E aqui está o original:

Ondas do mar de Vigo

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus, se verrá cedo!