domingo, 11 de dezembro de 2011

Ozzy sob uma perspectiva simbolista



Foi durante a semana passada que me ocorreu de ver algumas letras de músicas de Ozzy Osbourne sob uma ótica Simbolista. Ou melhor, encará-las como se tivessem sido compostas no contexto do Simbolismo. Na época da universidade lembro que perguntei ao meu professor sobre o que seria essa chamada literatura gótica de que todos falam, mas nós não ouvíamos sequer uma menção durante nosso curso. Então ele me explicou por alto e citou Ozzy, dizendo que isso era coisa nova, dos anos 80.
Procurando uma música que pudesse se encaixar com a proposta (Simbolista), encontrei "Ghost behind my eyes", do álbum Ozzmosis. Essa foi uma das primeiras músicas dele que ouvi e que gostei. Hoje é uma das minhas preferidas.

Ghost behind my eyes

There is a person living in my head
She comes to visit every night in Bed
I fight the Demon, but it just won't fall
They Voices in my dungeon starting to call

The spiders dancing on the wall
Suicide of love we could have had it all

And it is you,
You are the Ghost behind my eyes
I can't See through you,
You are the Ghost behind my eyes
The ghost that tells me Lies

The princess of the Dark has made my mind Home
My haunted head and her won't leave me alone
She dances on my heart with fire in my soul
I hate that feeling when I'm losing Control

The spiders dancing on the wall
Suicide of love we could have had it all

And it is you,
You are the Ghost behind my eyes
I can't See through you,
You are the Ghost behind my eyes
The ghost that tells me Lies

I wish to God that I could Sleep again,
Oh Peace again
And wake up from this Nightmare free again
Free again,
Oh Me again

There is a woman living in my head
She comes to visit every night in Bed
The spiders dancing on the wall
Suicide of love we could have had it all

And it is you,
You are the Ghost behind my eyes
You, you are the Ghost I behind my eyes
You, you are the Ghost I behind my eyes
The Ghost behind my eyes
Behind my eyes
The Ghost behind my eyes
The Ghost behind my eyes

Fantasma atrás dos meus olhos
(Tradução)

Há uma pessoa vivendo em minha cabeça
Ela vem me visitar todas as noites na minha cama
Eu enfrento o Demônio, mas ele não morrerá tão fácil
As Vozes em meu calabouço, começam a chamar

As aranhas dançam na parede
Suicídio de amor nós poderíamos ter tido tudo isso
E isso é você,

Você é o Fantasma atrás dos meus olhos
Eu não consigo Ver você realmente
Você é o Fantasma atrás dos meus olhos
O fantasma que me conta Mentiras

A princesa da Escuridão fez de minha mente sua Morada
Minha cabeça assombrada e ela não me deixam dormir
Ela dança em meu coração com fogo em minha alma
Eu odeio aquele sentimento de quando estou perdendo o Controle

As aranhas dançam na parede
Suicídio do amor nós poderíamos ter tido tudo isso
E isso é você,

Você é o Fantasma atrás dos meus olhos
Eu não consigo Ver você realmente
Você é o Fantasma atrás dos meus olhos
O fantasma que me conta Mentiras

Eu peço a Deus para que eu possa Dormir novamente
Oh Paz de novo
E acordar deste Pesadelo livre de novo
Livre de novo
Oh Eu de novo

Há uma mulher vivendo em minha cabeça
Ela vem me visitar todas as noites na cama
As aranhas dançam na parede
Suicídio de amor nós poderíamos ter tido tudo isso
E isso é você

Você é o Fantasma atrás dos meus olhos
Você, você é o Fantasma atrás dos meus olhos
Você, você é o Fantasma atrás dos meus olhos
O Fantasma atrás dos meus olhos
Atrás dos meus olhos
O Fantasma atrás dos meus olhos
O Fantasma atrás dos meus olhos

O que procurei fazer foi realçar palavras chaves colocando a inicial de algumas delas em maiúsculo, exatamente como faziam os simbolistas. Encarei a letra como um poema e segui o tema proposto. Como pode ser visto na tradução, uma entidade feminina invade a mente do eu-lírico vivendo como um organismo simbionte. Para destacar este sentimento de perda de si, transformei algumas palavras em símbolo: Cama, Demônio, Vozes, Fantasma, Ver, Mentira, Escuridão, Morada, Controle, Dormir, Paz, Pesadelo, Eu.

P.S.: Em “Deus”, apenas respeitei a letra original. Para mim ela não é palavra chave.

P.S. 2: Coloquei alguns termos em negrito para evitar entendimentos estapafúrdios e não confundir alhos com bugalhos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Chanson d'automne


Relembrando o mestre Paul Verlaine, traduzido por outro mestre na arte de tecer poemas, Alphonsus de Guimaraens. Fiquem com Deus, Brighd, Thor, Tupã ou o que lhes for mais conveniente.

Cordiais abraços.


Chanson d'automne
(Paul Verlaine)

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.


Canção do outono
(Paul Verlaine)
(Tradução: Alphonsus de Guimaraens)

Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh'alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Terra Mítica




Este poema/canção vem do longínquo ano de 2000. Composto durante a noite, numa aula de matemática ministrada por uma professora repressora e preconceituosa. Eu cursando ensino médio técnico, ainda assinava "Rhodrigo", pensando na minha banda de metal, esoterismo, doido para chegar logo em casa e ler mais Ted Andrews.
Não foi difícil me desligar por completo da aula e visitar o mundo com o qual estava familiarizado. Mundo este inspirado por Blind Guardian, Tolkien, Marion Zimmer Bradley, Ted Andrews e uma infinidade de lindos espíritos benfazejos.
Depois de pronto o poema, mostrei ao Cezar, meu futuro ilustrador e parceiro de banda na época. No dia seguinte ele me ligou dizendo que havia composto uma música usando meu poema como letra. Achei formidável.
O tempo passou. Nossa banda se foi. Com ela, várias coisas que criamos juntos. Este poema ficou guardado com ele durante anos. Coisa de uma semana lhe faço uma visita e ele me mostra o poema.
Repito suas palavras ditas há muitos anos: "Algumas coisas são eternas."


Terra Mítica – Rhodrigo

Terra Mítica, eu a vi
Púrpura como a noite
Se estendendo sobre florestas
E riachos que correm velozes

Terra de bardos e guerreiros
E anões fazedores de tesouros
Que habitam em cavernas
Guardadas pela sombra de Durin

Em cristalinos lagos
Belas ninfas se banham ao sol
Brincando com a água
Que escorre pelo rosto e volta para o lago

Duendes correm por entre trevos
Rumo ao arco-íris
Procurando potes de ouro
Rumo ao arco de Íris

Terra Mítica, eu a vi
Púrpura como a noite
Se estendendo sobre florestas
E riachos que correm velozes

Luas verdes e azuis
Dançam no céu
Guiando e ensinando
Sacerdotes e magos

Na antiga floresta
Velhos carvalhos
Murmuram doce melodias
E tocam com bardos

E há elfos que protegem florestas
Sonhando acordado
Ao lado de homens mortais
Embalados em batalhas medievais

Há gnomos que curam lebres,
Raposas e aves
E há unicórnios que se escondem
Por entre macieiras

No jardim, a mais bela fada
Mora em uma roseira
Artemísia é seu nome
A princesa das flores

Envolta em arbustos
Seus olhos transbordam
Amor e alegria
E sua fragrância inunda o jardim

Terra Mítica, eu a vi
Púrpura como a noite
Se estendendo sobre florestas
E riachos que correm velozes

E há espadas encantadas
Fincadas em pedras
Guardadas em cavernas
E há Merlins e Arthurs

Para encontrá-los basta acreditar,
Imaginar e sonhar
Feche seus olhos
E poderá vê-los... também

Em 09/06/2000, durante uma aula de matemática

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lamentações de Jacob Green


Este poema compus no trabalho, durante o intervalo. Ele é um dos poemas que colocarei na minha série. É um, dos muitos, momentos de introspecção de Jacob, um dos personagens centrais. Compus inspirado na música Darkness be my friend, do genial mestre Bruce Dickinson.

Lamentações de Jacob Green

Fria, a luz do sol cai
Um solitário homem em silêncio
Lembra-se do burburinho do ontem
Enquanto lágrimas escorrem pelo seu rosto

Campos abertos são sua morada
Uma bela paisagem melancólica
Perdida em pensamentos que ele não teve
E ele só pode culpar a si mesmo

O peregrino não irá procurá-lo
O mar não encontrará seu rochedo
Somente a relva será testemunha
Que, fria, a luz do sol cai


Em 14/06/2011

domingo, 14 de agosto de 2011

That Old Devil Moon

Quinta-feira, dia 11 de agosto de 2011 estive no CCBB para apreciar e me deleitar com a perfeita música de Miles Davis e conhecer mais sobre sua vida, já que praticamente nada sabia dele. Infelizmente não pude tirar fotos. A exposição Queremos Miles continha muitos objetos pessoais, como roupas usadas em shows, telas produzidas por Miles, fotografias antigas, reproduções e originais de flyeres, escritos e partituras.
Logo na primeira ante-sala, fui recebido por gravações antiguíssimas dele, da época em que tocava com Charlie Parker, Bill Evans. Apesar da qualidade das gravações, foi gratificante poder ler sobre sua vida, início de carreira, ver fotos da juventude ouvindo sua música. O que me chamou a atenção nessa exposição foi sentir a mudança significativa nas suas composições, e , ao mesmo tempo que sua carreira decolava. Nas primeiras salas, são nítidas as sequências de seu acelerado bebop, ao passo que ele vai evoluindo para o sentimentalismo de seu cool jazz. Reconheci várias músicas que adoro: Morpheus, Blue Haze, The serpent's tooth, na fase bebop e Freddie freeloader, Blue in green, Flamenco sketches, no cool jazz.
Mas emocionante mesmo foi ver fotos de mestre Davis ao lado de outros verdadeiros deuses do jazz: John Coltrane, Julian "Cannonball" Adderley, Herbie Hancock, Chick Corea, John Maclaughlin, embora a surpresa maior e o - também por que não dizer - deleite maior foi ver uma apresentação de um dos quintetos de Miles. A velocidade com que eles tocavam e
ra absurda. Simplesmente, eu, como ex-guitarrista tinha desconhecimento de que outros instrumentos pudessem chegar àqueles km/h. Muito antes de Joe Satriani, Steve Vai, Yngwie Malmsteen o velho e bom Miles Davis já botava todo o mundo no chinelo. Acho que fiquei quase meia hora assistindo àquele espetáculo. Durante esse tempo prestigiei momentos cômicos. Um senhor grisalho assistia ao vídeo compenetrado. Sua senhora, já impaciente, promove sua rabuja: "Como é, você não vem? Isso não vai acabar agora." Ao que ele só olhou com sobrancelhas de Ravengar. Ela se vai. Minutos depois ela volta. "Nossa, mas como ele se parece com o Pelé." Essa foi a deixa para o velhinho amante do jazz recolher sua vergonha. Acredito sinceramente que depois dessa ele desistiu da exposição, e de Miles para sempre, levando sua senhora para o Habib's mais próximo.
O clima intimista da exposição se deveu às pequenas salas projetadas para dar aquele ambiente dos antigos clubes de jazz. Geralmente com as paredes em vermelho ou preto. Não resisti e não pude deixar de dar um beijo, aproveitar o clima romântico ambientado. Só faltou mesmo uma Devassa ruiva ou uma Brahma extra.
Chegando no fim dos anos 60, há um Miles meio perdido. Não conhecia esse seu lado psicodélico e flertando com rock. Não gostei. Ficou muito samba do crioulo doido - com todo o perdão do trocadilho -. Mas reconheço que não poderia ficar de fora. Mais decepcionante foi a fase soul. Se a anterior lembrou Joe Cocker, Jimmy Hendrix, essa é marcada pelo flerte com James Brown, Jackson 5. Gostei menos ainda. Nos anos 80 minha opinião foi de que ele surtou. Parecia um poser, um Gene Simmons, e para quem sabe de quem se trata sabe o quão nojento isso é. São dessa época várias roupas de show. E há também vários vídeos de comerciais. Vale a pena pelas entrevistas.
Nos anos 90, e consequentemente no fim da exposição, parece que Miles botou a cabeça no lugar. As composições melhoraram muito. Ficaram com uma roupagem mais eletrônica, mas dá para sentir o velho Miles de volta.
Há uma sala dedicada às capas de álbuns. Algumas parecidas com capas de Santana, onde se pode ver os órgãos dos seres, em outras há nítidas referências à África. A sala seguinte mostra capas de álbuns com mulheres negras, relembrando o heroísmo de Miles ao impor à gravadora que assim fosse, afinal quem não gosta de uma negra ou mulata bom sujeito não é.
Uma nota a parte para os instrumentos. Foi muito legal descobrir que Miles decorava seus trompetes. Dá para perceber que era bem pessoal, porque de longe ninguém poderia notar, apenas ele, como um presente que a pessoa se dá. Então nos demos esse presente e vamos todos ao CCBB, porque literalmente "Queremos Miles".

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vaya con Dios


O post de hoje é especial. Faço aqui algo que nunca pretendia neste blog. Há uns meses imaginei que o vício em Los Panchos duraria pouco tempo, mas me enganei, porque eles chegaram para ficar. E não há mesmo como não sucumbir a suas letras. São marcantes, profundas e, pelo menos em mim, promovem uma reflexão que de certa forma chega a mexer com minha vida.
A música em questão é Vaya com Dios. Logo me chamou a atenção que lembra aquelas musiquinhas tristes do Chaves, se não me engano, do fim do episódio das Férias de Acapulco. Aquele início em valsa é de uma tristeza bela, se é que se pode chamar assim, e o violão de Alfredo Gil também é um dos mais impressionantes, porque traduz fielmente o sentimento da canção.
Mas o objetivo do post não é a música em si, mas sim o que ela evoca. Ela fala de um eu-lírico que reconhece o momento da despedida, mesmo desejando não fazê-la. Logo recordei vários momentos da minha vida. Lembrei quedas, dores, momentos difíceis, de erros e dúvidas. De medo. Mas também recordei bons momentos, felizes e alegres, como um sol radiante. E foram esses bons momentos que me fizeram seguir pela estrada que sigo hoje. E muito feliz estou nela.
Realmente me sentiria como o eu-lírico de Vaya com Dios se não tivesse essa mulher comigo hoje. Se não estivéssemos juntos cantaria esta canção – não a plenos pulmões, porque não é o espírito da fúria passional que a rege, mas – com a mais doce, e embargada, das vozes. Haveria um carinho todo especial, assim como Albino (ou Julito) fez, quando minha voz passeasse por Adonde tu vayas, yo voy contigo / En sueños junto a ti yo estaré e meus votos seriam os mais sinceros, todas as vezes que cantasse em La alborada al despertar feliz te espera / Si en tu corazón yo voy a donde quiera
Outra coisa que Vaya con Dios me ensinou é que o amor não aprisiona. Ele quer bem. É aquela velha estória do passarinho da gaiola aberta – mas, claro, sem a conotação do “galinha de casa não se corre atrás”. Vivendo livres, vivemos melhor, temos uma vida inteira para aproveitar o que o amor tem de bom a nos proporcionar.
E se não fosse dessa maneira, é justo que o amor buscasse outro amor, percorrendo a estrada de tijolos amarelos, entrasse no barquinho em forma de cisne para atravessar a ponte. Ficaria a lembrança, do que foi e do que poderia ter sido.
É triste? Sim, é. É amedrontador? Também. Mas somente percorrendo esta estrada se pode ter confiança de é ela mesmo e não há outra. E escrevendo esse post agora me ocorreu que em minha estória de amor posso dizer, ao invés de vaya com Dios, venga com Dios.
Te amo, mi chica.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um sonho em terracota - parte 2





Como me esqueci de mencionar algumas coisas no post anterior o faço agora.
Não consigo mais parar de ouvir Trio Los Panchos, então resolvi também, de certa forma, homenageá-los fazendo referências a trechos e nomes de algumas músicas suas, que são grandes clássicos do cancioneiro latino. Essas músicas representam um pouco da poesia na América Latina e revelam também um pouco dos costumes destes povos. E como disse no post anterior, meu objetivo era buscar um apelido, um codinome para minha homenageada mor. Assim determinado, me inspirei neste cancioneiro, mas não pude repeti-lo. Não poderia nunca chamá-la de piel canela, mas em muitos momentos resgatei inesquecíveis ojos negros, morenita.
Fiz outras referências a América Latina na descrição da paisagem. Estão lá uma favela, o chão de barro e areia, que podem também remeter ao México e Chile; o morro, a Cordilheira dos Andes; o pisco, ao Chile e Peru, e também a nossa boa cachaça de alambique; o ar brincalhão da morena que se apresenta quase como uma entidade pré-Colombiana, uma infantilidade e inocência indígena.
Deixo ainda para vocês o poder decisão: extraí o termo moreninha do Joaquim Manuel de Macedo de seu aclamado romance A Moreninha ou ambos tivemos a mesma motivação e inspiração?
Quanto ao oásis somente os personagens sabemos do quê se trata!


Confira a 1ª parte aqui



Um sonho em terracota - parte 2

Talvez para me sacanear, começou a ventar. No princípio um alívio, mas logo ventou tanto que mais parecia uma tempestade de areia. Como em pleno Rio de Janeiro? Era sacanagem. Só podia ser. E das puras.
Chegou num ponto que não dava para ver mais nada. Me sentia imerso num mar terracota. Pelas minhas lembranças devia estar no topo do morro, mas a vista para a cidade lá embaixo não dava para ver. Sentei numa pedra e esperei aquela sacanagem acabar.
De um redemoinho pude ver um movimento diferente daquelas correntes de ar. Uma mistura perfeita da cor do barro claro e da areia quase branca surgia dentro daquele redemoinho. A figura foi se espiralando. Tomou formas femininas e uma moreninha saiu de lá.
Mirei em seus lábios carnudos e vermelhos da cor do sangue. Era impossível não olhá-los. Depois parei em seus olhos amendoados. Eram un par de ojitos negros com um cielito lindo como pano de fundo, exatamente como naquele bolero. Ela sorriu marotamente e retirou seu vestido da mesma cor de sua pele terracota.
Deus! ela ficou nua... na minha frente.
Mesmo sendo pequenininha, seus seios eram fartos. Dois montes creme com um grão de milho torrado em cada um deles. Ela era linda. A morena mais bonita que meus olhos podiam suportar ver sem serem destruídos.
Ela passou a língua pelos lábios e jogou os cabelos lisos. Foi caminhando e a cada passo que dava olhava para mim e sorria. Fui atrás dela. Aquilo parecia ser coisa do diabo, mas estava pouco me lixando para ele. Ela fazia questão de me mostrar o pé, que ela roçava no chão e suspendia até a altura da bunda, que por sinal era redondinha. Nenhuma mulher podia ter uma bunda daquela, ainda mais com aquela estatura. Era mesmo coisa do demo!
Ela desceu uma leve encosta e mergulhou num oásis. Aquilo não devia estar ali. Esfreguei meus olhos desejando continuar a vê-la quando os abrisse. E de fato ela estava lá. Com oásis e tudo. Quando criança aquilo era um lugar de desova, não uma maravilha como aquela.
E ela ensaiou nadar um pouco. Cuspia água em mim e sorria belamente. Afundava a cabeça para encher a bochechas de água e cuspir de novo. Era incrível ver aquela delícia terracota se banhando. Percebi que seus cabelos foram enrolando no contato com a água até cachear. Ficou ainda mais bonita. Então ela saiu deslumbrante do oásis. Veio na minha direção apertando os peitos. Fui abrindo a camisa arrebentando os botões. De entre seus seios ela tirou uma dose de alguma coisa e me deu. Era um líquido incolor. Cheirei. Tinha cheiro de álcool puro. Bebi.
Cara, era pisco! Só tinha tomado uma vez na festa dos peruanos do Méier. Como ela conseguiu aquilo? Era dificílimo encontrar um, ainda mais o peruano. E mais forte que o que tinha tomado.
Logo fez efeito e fui sentar na pedra. Ela ficou dançando na minha frente. Sacudia os cabelos para continuar me molhando. Lambia os ombros, os braços, me mostrando como era linda e única aquela pele terracota. Seus lindos olhos de morena me diziam que nunca mais encontraria uma como ela.
Então levantei. Estava decidido a beijar aquela boca, sugar aquela pele, apertar aquele corpo macio contra o meu. Ela se abaixou, começou a escrever no chão. Quando abaixei-me perto dela, perdi o equilíbrio por causa do pisco e caí. Ela ficou rindo com aqueles dentes grandes, brancos. Levantei-me e vi o que tinha escrito. “Vivi”. Perguntei se esse era seu nome. Como não houve resposta, ergui minha mão disposto a tocar em um de seus seios. Ela encheu as bochechas de ar e cuspiu água do oásis em meu rosto.
Quando terminei de secar meu rosto na camisa que tinha tirado, ela estava afastada, mas sorria me dando língua. Perguntei novamente se aquele era seu nome. Então ela se abaixou e voltou a escrever no chão. Me chamou com a mão e apontou para que lesse. Cheguei perto e estava escrito “aqui muito antes de vocês.” Levantei a cabeça para dizer a ela que não tinha entendido, mas ela já estava descendo o morro pelo mesmo lado em que eu viera. A moreninha se ia dançando, levantando os braços, mandando beijos com as mãos, levando embora seus olhos negros e sua pele terracota. Começou a ventar e um pano passou perto dela, que o segurou. Era um véu. Ela girou-o no ar várias vezes. Escondia o rosto nele e mostrava. Minha última lembrança sua foi o seio, que cobriu, me mostrou e depois cobriu novamente. A ventania começou a cobri-la e não a vi mais.

O sol voltou a me incomodar e a me queimar. Segui meu caminho descendo para tomar o ônibus ao Centro. Levei comigo o fraco zunido do vento, que assobiava como uma flauta andina, e o copinho da dose de pisco, que guardo até hoje.

Em 16/05/2011.