sábado, 18 de junho de 2016

Fonsequiando

Conto inspirado na obra de Rubem Fonseca, com o Rio de Janeiro como cenário, como não podia deixar de ser.

Fonsequiando

A Elesbão Ribeiro

Depois de girar pelos buracos da cidade, encontrei meu destino num motel fedorento da Av. Brasil, desses que o letreiro pende de um lado de velho. Além de fedorento o lugar era mal conservado, um muquifo. Onde os ratos só entram para espantar o tédio.
Tinha à minha disposição uma morena. Não era bonita, mas tinha grande a bunda. As roupas eram vulgares, mas convenhamos, onde a peguei se assim não estivesse seria confundida com suas vizinhas moradoras do mesmo bairro, vila, favela ou sei lá o que aquilo chamasse.
Mas não, eu conhecia aquela merda toda. E conhecia com a palma da minha mão. Sempre estaria em mim. Indubitavelmente impresso, expresso, selado e carimbado.
Putaquepariu, disse eu baixinho, tô ficando velho, é capaz de continuar pensando nisso mesmo depois de morrer.
Como, senhor...?, perguntou Rosineide. Eu levantei os olhos. Do chão para as coxas dela. Rosineide tinha junteira, mas que disfarçava com um rebolado de adolescente mostrando o rabo. Na hora lembrei-me do Camilo, da firma que trabalhamos na zona oeste: mulher gostosa, é a que tem junteira, rebola mesmo sem vontade.
Dance, disse a ela, e sentei numa cadeira salmão, desconfiando que um dia tivesse sido rosa. Não faço além do combinado, se o amigo não sobe aí o problema é contigo, falou.
Olhei seriamente para ela, eu só quero que dance. Você dança e fica tudo bem. Não, ela gesticulava como se não falássemos no mesmo idioma, não vou fazer além do combinado. Ou então você paga mais.
Quem ela pensava que era? Havia tantas como ela. Se eu emparelhasse algumas ali elas negociariam entre si o menor valor pra mim. Fiquei olhando aquelas coxas levemente curvadas pra dentro, até a altura dos joelhos, depois seguiam as canelas retas, mas em direções opostas. Até que tinham lá sua graça. Sorri.
Você deve achar que sou um velho babão, disse ainda com o sorriso na boca. Olha, acho não, nem velho o você é, respondeu ela, mas que tal começarmos logo? Cê qué que eu bata uma?
Ela tinha certeza de que eu era uma merda de velho babão. Onde fui parar? Até uma puta sentia pena de mim. Parece que debaixo do poço havia um sótão. E sim, as putas sentiam profunda compaixão por mim. Como podia ser diferente?
Rosineide, querida, eu não quero punheta, falei calmamente. Quero que você dance. E só dance. Entendi o que você quer, mas pra ter showzinho tem que abrir a mão, e ela me estendeu a palma da mão com o indicador da outra no centro.
Estava ficando puto com aquilo, será que ela queria também me sacanear? Que porra que ela tava falando? A mulher tinha junteira e problemas cognitivos.
Levei a mão ao rosto numa expressão de angústia. Olha, a gente não vai meter, mesmo que “o amigo” suba. Como?, ela me perguntou. E tinha realmente dúvida em seu rosto. Levantei e falei, eu não meto, você dança, eu te pago e você vai embora, sorri com olhos vidrados como se estivesse fazendo uma descoberta maravilhosa.
Rosineide titubeou, levou a mão à cabeça e disse, tá legal, se você quer assim. Então ela pegou seu smartphone e colocou uma porra de funk estridente e teria começado se eu não interviesse. Ah, você quer se dar de bacana, tenho uma ótima pra gente fina, e colocou Joe Cocker, aquela mesma do comercial. Será que ninguém cansava daquela porra?
Tira isso daí, falei com impaciência já pegando o meu smartphone. Pronto, agora sim. Era Miles Davis. Tinha uma música do Savatage na cabeça, que falava sobre espinhos e sonhos, mas queria mesmo era ouvir Miles Davis. Era com sua música que queria ver aquilo. E não descobrir que podia haver mais coisa embaixo do sótão.
Rosineide começou a dançar. Ela era gostosa e conseguia ficar mais gostosa ainda dançando. Jogava os quadris de um lado para o outro, como as pancadas de um gongo que soam e soam. E atordoam o alvo a cada colisão. Se eu metesse nela jamais teria aquela visão, do corpo moreno, à meia luz, serpeando a hipnose, mareando o movimento, puxando os olhos da cara, grudando na pele, de fogo e beleza e desejo.
Rosineide ria e mandava beijinhos. E me mostrava a bunda. Passava o pé pelas canelas, subindo. Voltava a dançar com aquele movimento ondulante de amazona e rainha-puta. Sim, puta, rainha e amazona a um só tempo. O que rondava minha mente era que ela não era isso tudo por si mesma. No fundo era uma mulher comum. Como qualquer outra. O que a fazia puta?
Eu sabia. Sempre soube. Desde sempre. Era o mesmo que fazia minha mãe ter sido puta, ter posto minha irmã pra ser puta e consequentemente o que levaria minha filha a ser a puta dos coleguinhas, pelo que a mãe dela já dizia.
Elas eram mulheres comuns. De avental sujo de gordura e lambendo colher de pau. E eram putas dependendo do babaca que tivessem por perto. Ou lhes pagando pra dançar. Ou meter. Ou implorar por uma punheta.
Abri o bolso da camisa e tirei um envelope preenchido com o pó mágico que cai das asas da Sininho. Havia meses ali. Abri uma cerveja morna e derramei tudo, sem deixar um naco sequer rolar pra fora da boca da lata. Bebi a metade de um gole só. O gosto era horrível, mas nunca beberia aquilo novamente. Decidira isso naquela hora. Sem chance de voltar atrás.
Logo o efeito me nocauteou no descanso da cadeira e turvou meu olhar como se transformado num chinês em questão de segundos. Ainda via o corpo de Rosineide serpeando à minha frente, como deus e o diabo em luta, em festa ou cópula. Aquilo era uma profusão multicor de tons escuros. As ancas jogando de um lado para o outro como uma embarcação flutuante, que não sabe se doma ou se engolido pela maré tempestiva.
Rosineide começou a falar, mas que ela dizia? Sua voz era um amontoado de palavras desconexas, como aquela porra de linguagem de Lovecraft. Mas sobretudo sorria. Na minha mente confusa ela queria transar. Transar não, foder. Ela queria foder. E ela queria foder era muito. Não que eu fosse babaca de achar que elas sentiam tesão nos caras que as pagam, mas seu olhar me dizia isso. Tentei dizer a ela que continuasse a dançar, mas as palavras simplesmente não saiam porque minha boca já estava dormente.
Levantei os braços pra acenar e ela tomou a lata das minhas mãos de um impulso. Cara, como eu queria estar sóbrio pra dizer que não bebesse daquela merda, da mesma forma como queria ter arrebatado os copos de que beberam minha mãe e minha irmã, e dos que beberia minha filha, segundo a mãe dela putinha igual a avó e a tia.
Mas não adiantou. Ela tomou tudo.
Tão logo caiu na cama, fechei meus olhos esperando que o espinho perfurante me lançasse no sonho derradeiro, ali, banhados pelo neon vermelho como caricaturas shakespearianas.


Rodrigo Martins

Em 14/06/16

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