sexta-feira, 13 de abril de 2012

Como começou

Era para ter sido assim, mas infelizmente não foi o que aconteceu, em português e espanhol.

Como começou

Não começou avassalador, como um furacão, como um vendaval que se inicia sem um princípio aparente e que parece englobar o mundo. Foi como uma onda, uma pequena onda. Na verdade, se assemelha a um passeio na orla. Primeiro os pés tocam a areia úmida molhando a sola dos pés. Depois se sente vontade de ir além, então se caminha às águas. No princípio, só espuma. E dá aquele arrepio gelado. Os pés valsam a areia molhada que, ondinha após ondinha, cobrem os pés. Eis que gotículas saltam das ondas em varreduras e pincelam as canelas. É uma sensação tão gostosa que se passa a ouvir o murmúrio do mar lá longe. Então os joelhos tremem. Nisso, sobe a maré, e as roupas ficam encharcadas. As águas puxam e não há mais nada a fazer a não ser se juntar, deixar que as ondas embalem. Mas a música do mar é um bolero, que deixa e prende, que sobe na crista e arrasta para o fundo. E assim como todo bolero, termina num beijo, que é a promessa de uma renovação. A música do amor.

No comenzó avasallador, como un furacon, como un vendaval que se inicia sin un principio aparente y que parece englobar el mondo. Fue como una ola, una pequeña ola. En verdad, asemillase a un paseo en la orla. Primero los piéis tocan la arena húmida mojando la sola de los piéis. Después si siente vontade de ir alem, entonces se encamina a las aguas. En principio, solo la espuma. Y da aquello arrepio gelado. Los piéis valsan la arena mojada que, olita hasta olita, cubren los piéis. Entonces gotitas saltan de las olas en barreduras y pincelan las canelas. Es una tan exquisita sensación que se pasa a olvidar el murmurio del mar en la distancia. Entonces las rodillas tiemblan. En ese instante, sube la marea, y mojan las ropas. Las aguas pujan y no hay nadie a hacer aunque si juntar, dejar que las olas embalen. Entretanto la música del mar es un bolero, que deja y prende, que sube en la crista y arasta hasta el fondo. Y así como todos los boleros, termina en un beso, que es la promesa de una renovación. La música del amor.

Em 21/03/2011.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

No me quieras tanto


Mesmo na dor se há arte. Mesmo combalido, ferido, destronado, destroçado subsiste o sentimento bruto ansiando para ser lapidado, esmerado, pacientemente, enquanto o peito sangra, jorra. Ele espera ser liberto da dor da criação, do nascimento-morte, abandonar o fraco criador atirado à lama da incompreensão. O que de fato é o objetivo do ato: buscar autonomia para uma vida própria. E nessa autonomia inverti as pessoas da letra da música abaixo. Los Panchos siempre!

No me quieras tanto

Yo siento en el alma
tener que decirte
que mi amor se extingue
como una pavesa,
y poquito a poco
me quedo sin luz.

Yo sé que me muero,
cual pálido cirio
Todo es que te quiero
que tú eres mi delirio,
y que en esta vida
has sido mi cruz.

Ay! Amor ya no te quiero tanto
Ay! Amor no debo sufrir más por ti
Si no más puedes causarme llanto
Ay! Amor olvídome de ti

No te das pena que siga sufriendo,
mí amor desesperado?
Yo quisiera así encontrar
de nuevo otro querer.
Otro ser que me brinde la dicha
que tú no me he brindado
y que pueda alejarme de ti
para nunca más volver.

Ay! Amor ya no te quiero tanto
Ay! Amor no debo sufrir más por ti
Si no más puedes causarme llanto
Ay! Amor olvídome de ti

domingo, 1 de abril de 2012

Quando a História é atirada à lama

Esse texto (conto, crônica de personagem, sei lá) escrevi hoje mesmo. Apesar de ser uma ficção possui alguns elementos lógicos, memórias de pessoas antigas - que viveram ou que conviveram com as que viveram - a respeito dos fatos da época e pensamentos meus sobre a questão. É a primeira vez que componho algo sobre a Segunda Guerra Mundial. Tive a ideia depois de ouvir repetidas vezes a música Paschendale, do Iron Maiden, álbum Dance of Death. Espero que gostem, se comovam, critiquem e deixem suas opiniões.

Quando a História é atirada à lama

De onde estou não consigo ver as linhas. Não posso divisar onde estão à minha frente. Onde estariam. Sei que não estão. Porque o pelotão anterior caiu antes que partíssemos. Assim fomos chamados.
Mas onde estão meus companheiros? Por que meus compatriotas não estão comigo? Deveriam estar ao meu lado, mas estão dispersos. Levamos dois dias para chegar aqui e grandes estrondos nos separaram. Não separaram. Nós nos separamos. Não nos separamos. Deserção o que houve.
Na trincheira sinto frio e fome. Mas não sede. O campo está alagado pela chuva que cai sem parar há exatos dois dias. A caminhada é difícil, mas o movimento não pode parar. Meu pelotão ainda está ativo. Porque eu sou meu pelotão.
Longe da guerra, há chance para a vida. Dentro da guerra, há morte. É a Pátria que incita o filho, de onde tomamos o sangue e o corpo emprestado.
Por isso verifico meu fuzil, checo as munições, destruo o radiotransmissor defeituoso. A terra escura dos campos da Itália cobre meu rosto e minhas mãos. A mesma Itália onde servimos de tapete para futuros algozes. A mesma Itália onde o sangue dos verdadeiros compatriotas nutriu a terra inimiga.
Minha Pátria não saberá da minha existência. Meu povo não honrará minha luta. Mas não recuarei. Continuarei avançando. Mesmo que os estrondos recomecem, mesmo que o céu se risque de pássaros flamejantes e fumaça, mesmo que as rajadas cruzem minha direção, transporei as poças, o campo esburacado e repleto de projéteis.
Corpos esfacelados. Metal retorcido. Vozes de motores. Sangue. Sangue. Sangue é a tinta da não-história que se faz e não será lembrada, não será cantada, não será comemorada. Não existirá neste mundo, somente no plano da glória.
Os corpos fedem e sangro. A visão turva ao que vejo os leais combatentes. Todos mortos. O horror da guerra não me assusta. Tampouco a possibilidade da fuga existe em meu coração. O estampido consecutivo e martelante chacoalha minha mente. O senso do dever me leva adiante, inibe a dor e a exaustão. Mesmo sem fuzil, capacete ou punhos e braços. O pelotão é o meu corpo. A Pátria é o meu corpo. O grito de milhares, de uma nação é o meu corpo. Destroçado.

Em 1º/04/2012.